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Comum no período chuvoso, mofo revela falhas na construção e causa riscos à saúde
Reportagem/Bheatrys Soares
A mancha começa discreta. Um ponto escuro no canto da parede, quase imperceptível, que aos poucos se espalha em formas irregulares acinzentadas ou esverdeadas. Com o passar do tempo, o cheiro de umidade se intensifica e a tinta começa a descascar. O ambiente ganha um aspecto abafado e um cheiro bem característico. À primeira vista, pode parecer só um incômodo estético. Mas, na verdade, o mofo é sinal de um problema bem maior, que envolve falhas na construção e oferece grandes riscos à saúde.
Durante o período chuvoso, esse cenário se torna ainda mais comum. A elevação da umidade no ar e a dificuldade de secagem das superfícies criam o ambiente ideal para a proliferação de fungos. “O mofo é um tipo de fungo que se desenvolve a partir de esporos presentes no ar e que encontram condições ideais para crescimento em ambientes com alta umidade e pouca ventilação”, explica a professora do curso de Biomedicina da UniFacimp Wyden, Monick Nielly Miranda Pinto. Segundo ela, o problema pode estar presente mesmo quando não há sinais visíveis. “É possível haver mofo sem manchas aparentes, já que os fungos podem crescer em locais ocultos, como atrás de móveis ou dentro de armários, liberando esporos que já comprometem a qualidade do ar”, alerta.
Os números reforçam a dimensão do problema. Um estudo realizado pela empresa Mold Busters identificou que 30% das edificações no mundo apresentam algum tipo de problema relacionado à umidade e ao mofo. Já no Brasil, pesquisas apontam que quase metade das pessoas já viveu ou vive em residências com presença de umidade. O impacto é direto no sistema de saúde: a estimativa é que pelo menos 2,4 milhões de casos de asma no país estejam associados à exposição ao mofo em ambientes residenciais.
ESTRUTURA
Do ponto de vista da construção civil, as manchas nas paredes são apenas a ponta do iceberg. “A umidade é um sintoma de que existe uma falha na edificação. Quando a água infiltra por fissuras, trincas ou falhas de execução, ela compromete a integridade dos materiais, deteriora o concreto e enfraquece as alvenarias”, afirma o professor do curso de Engenharia da Estácio, Thiago Freitas. Ele alerta que a infiltração pode indicar problemas mais profundos, muitas vezes relacionados a falhas na impermeabilização de lajes, fundações e áreas molhadas, além de erros em detalhes construtivos, como calhas, rufos e pingadeiras.
Outro fator que contribui para o avanço do problema é o acúmulo de água no solo, comum em períodos de chuva intensa. “Quando o terreno fica muito encharcado, essa água procura caminhos de escoamento e acaba atingindo diretamente as fundações. Sem uma barreira de proteção adequada, ela sobe pelas paredes e cria condições ideais para o surgimento do mofo”, explica Freitas.
Se na estrutura o impacto é silencioso, na saúde ele pode ser imediato. A exposição ao mofo está associada a uma série de problemas respiratórios e alérgicos, como irritação nos olhos, nariz e garganta, tosse, espirros e dermatites. Em pessoas mais sensíveis, os efeitos podem ser ainda mais graves. “O mofo pode agravar doenças respiratórias como asma, rinite e bronquite. Os esporos irritam as vias aéreas e podem desencadear crises”, alerta Monick.
A limpeza das manchas, embora necessária, não resolve a origem do problema . A recomendação é usar luvas e máscara na hora de lidar com o mofo, aplicando água sanitária diluída e atentando para a secagem completa e a ventilação do ambiente.
Mas essa solução é apenas momentânea: a medida mais eficaz é identificar e corrigir a fonte da umidade ou, como explica Thiago, atuar de forma preventiva. Investir em impermeabilização adequada, garantir ventilação cruzada, permitir a entrada de luz solar e evitar encostar móveis nas paredes são medidas simples que ajudam a reduzir os riscos. “Quando o problema já está instalado, a correção pode ser até cinco vezes mais cara”, alerta Thiago Freitas. Ou seja: por trás daquela simples mancha na parede, pode existir um problema muito mais profundo. Ignorar pode custar caro tanto para o bolso, quanto para a saúde.
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