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De volta à sala de aula: cresce o número de profissionais que escolhem a Medicina como segunda graduação

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Reportagem/Jherry Dell’Marh
Pense em um estudante de Medicina: qual a primeira imagem que lhe vem à mente? Provavelmente a de um jovem recém-saído do ensino médio, aprovado em um vestibular concorrido e pronto para iniciar uma longa jornada acadêmica. As estatísticas, no entanto, mostram que essa ideia corresponde cada vez menos à realidade. Nos últimos anos, um número cada vez maior de profissionais experientes, com carreiras já consolidadas em outras áreas, está voltando à sala de aula e vestindo jaleco pela primeira vez.
Segundo pesquisa Demografia Médica no Brasil, estudo coordenado pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), o país registrava 266.507 estudantes matriculados entre o primeiro e o sexto ano de Medicina em 2023. Embora a maioria dos alunos ainda tenha até 24 anos, a participação de estudantes com 30 anos ou mais mais que dobrou nos últimos anos, passando de 6,4% em 2010 para 13,8% em 2023. Por trás desses números existem histórias de recomeços, mudanças de rota e escolhas feitas com mais maturidade do que pressa.
É o caso da advogada Diva Cruz Martins de Freitas. Formada em Direito e com atuação voltada para o Direito Médico e da Saúde, ela encontrou na Medicina uma forma de ampliar seus conhecimentos e aprofundar a atuação profissional. “Eu tive a oportunidade de fazer Medicina antes, mas o Direito foi uma escolha natural porque minha família inteira é da área jurídica”, conta.
A mudança começou a tomar forma durante a pandemia, quando ela passou a atuar cada vez mais em questões relacionadas ao universo da saúde. “Passei a trabalhar com ações envolvendo planos de saúde, questões técnicas e de diagnóstico médico. Percebi que precisava compreender melhor a linguagem médica para oferecer um trabalho ainda mais qualificado”, explica. O passo seguinte foi o vestibular e a matrícula no IDOMED São Luís, onde ela hoje cursa o 5º período. Para ela, as duas formações não competem entre si; ao contrário, se complementam.
“Estudar Medicina me permite compreender a área da saúde em toda a sua amplitude. Consigo dialogar melhor com médicos, entender aspectos técnicos e elaborar análises mais consistentes. É uma formação que consolida minha trajetória profissional”, garante Diva, que acredita ainda que a experiência adquirida na primeira carreira também faz diferença dentro da faculdade.
“Sem dúvida, a advocacia me trouxe segurança. Aprendi a me posicionar, a defender ideias, a ter responsabilidade pelas minhas palavras e decisões. Talvez, se a Medicina tivesse sido minha primeira graduação, eu não tivesse a maturidade que tenho hoje para aproveitar essa experiência”, conta.
ESCOLHAS
Para a coordenadora acadêmica de Medicina do IDOMED São Luís, Mércia Leite de Souza, o crescimento desse perfil de estudante reflete mudanças profundas na forma como as pessoas enxergam carreira e educação.
“Hoje, as trajetórias profissionais são menos lineares. A educação passou a ser entendida como um processo contínuo. As pessoas estão mais dispostas a reavaliar escolhas e buscar novos caminhos quando percebem um desalinhamento entre profissão e propósito”, afirma.
Para ela, quem chega à Medicina após outra graduação costuma fazer uma escolha mais consciente. “Existe uma busca por propósito e por uma atuação que gere impacto direto na vida das pessoas. Além disso, são estudantes que normalmente já conhecem melhor suas próprias expectativas e valores”, avalia.
Essa maturidade também influencia a forma como enfrentam a rotina acadêmica, já que estudantes mais velhos, segundo Mércia, tendem a ser alunos mais disciplinados, autônomos e organizados. Mas também há desafios, já que esses estudantes frequentemente precisam conciliar o estudo com responsabilidades familiares e se readaptar a uma vida de alunos. “Hoje, eu vivo em função do curso, me organizei para ser estudante em tempo integral, até porque é uma rotina puxada de provas e entrega de relatórios”, explica Diva.
Para Mércia, a principal reflexão ao escolher a Medicina como carreira, em qualquer fase da vida, deve ser a consistência da decisão. “A Medicina exige dedicação intensa, tempo e uma grande reorganização da vida. Se existe clareza sobre esses desafios e disposição para enfrentá-los, a idade não deve ser um impeditivo”, avalia.
NUNCA É TARDE
E, como as escolhas não tem prazo de validade, mas sim, momento certo de acontecer, Thaís Mayanna Sousa Melo é outra estudante que, com uma carreira consolidada e dez anos de atuação em outra área,  dá, agora, seus primeiros passos rumo à Psiquiatria. Psicóloga há dez anos, ela conta que o interesse pela Medicina surgiu justamente durante sua atuação profissional. “Na verdade, a Medicina nasceu dentro da Psicologia. O desejo de atuar na Psiquiatria sempre esteve presente”, relata.
Na época em que Thaís concluiu o Ensino Médio, porém, a combinação entre concorrência elevada e limitações financeiras tornou o sonho distante. O valor do curso e a dificuldade do vestibular acabaram adiando esse projeto, e eu decidi investir na área de Psicologia”, relembra. Anos depois, com a carreira já estabelecida como Psicóloga, ela decidiu transformar o antigo sonho em realidade. Não que tenha sido fácil. “Tive que reorganizar completamente a minha vida e parar de trabalhar para me dedicar ao curso”, mas a experiência está valendo a pena”, comemora.
Para Thaís, assim como para Diva, a experiência profissional anterior é uma vantagem importante. “A Psicologia me ajudou muito. Eu já tinha uma base de aprendizagem, experiência com pessoas e uma compreensão maior sobre o comportamento humano. Isso faz diferença dentro da Medicina”, analisa.  Mais do que uma mudança de profissão, ela enxerga a graduação como a realização de um projeto de vida construído ao longo de anos.
“É a concretização de um sonho e também a possibilidade de construir um futuro diferente”, conclui.
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