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Debaixo do sol, em cima do asfalto

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Profissionais que trabalham ao ar livre estão expostos a riscos
Reportagem/Juliana Castelo
O trabalho como entregador, motoboy, mototaxista ou motorista de aplicativo é cada vez mais comum. Dados da plataforma Uber Moto, por exemplo, revelam que 800 mil motociclistas parceiros já realizaram ao menos uma viagem. Já segundo pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) 385,7 mil pessoas atuam como entregadores. Apesar do tamanho dessa força de trabalho, os riscos à saúde associados à rotina nas ruas ainda são subestimados.
O médico do trabalho, emergencista e professor do Idomed São Luís, Lucas Campos, explica que esses profissionais formam um grupo vulnerável. “Quem trabalha ao ar livre está exposto a riscos constantes: acidentes de trânsito, ruídos intensos, poluição, vibração contínua da moto, calor extremo e sol forte. No Maranhão, isso se intensifica por causa das altas temperaturas”, explica.
A realidade descrita pelo professor se encaixa perfeitamente na rotina de João Victor Soares, 27, entregador de comida por aplicativo em São Luís há oito meses. “Dá oito, nove horas da manhã e o sol já está queimando. A jaqueta esquenta demais. Mas, se eu tiro, fico exposto e no final do dia, com a pele do braço toda ardendo”, comenta. Ele roda, em média, 9 horas por dia e, entre uma entrega e outra, aproveita qualquer sombra para descansar e beber água. Mas nem sempre lembra do protetor solar. “A correria é tanta que que às vezes eu esqueço”, admite.
Além do calor, os riscos do trânsito também fazem parte do cotidiano. Em poucos meses de trabalho, João já sofreu duas quedas, felizmente, sem gravidade. Ainda assim, ele relata o medo constante. “Eu uso tudo certinho, capacete, viseira, luva e sapato fechado, mas o problema é o outro motorista. Tem dia que parece que ninguém está respeitando o espaço da gente”, reclama.
O barulho da cidade e a vibração contínua da moto também deixam marcas. Ele conta que, em alguns dias, chega em casa com zumbidos no ouvido e as mãos dormentes depois de tantas horas pilotando. “É a parte do trabalho que ninguém vê, mas o corpo sente”, diz.
PROTEÇÃO
De acordo com o especialista, os riscos enfrentados por esses profissionais são reais e demandam, sim, cuidados especiais no dia a dia. A exposição prolongada ao sol, por exemplo, amplia o risco de câncer de pele, queimaduras, desidratação e insolação. O ruído e vibração constantes da moto podem causar zumbido, fadiga muscular e problemas articulares.E, mesmo que pratique a direção defensiva, o motociclista não está totalmente livre de acidentes.
Lucas Campos orienta que empresas que contratam profissionais para atuar em motos, carros ou em atividades externas devem fornecer o conjunto completo de equipamentos de proteção: botas adequadas, roupas grossas e fechadas e capacete fechado com viseira, além de luvas, cotoveleiras e joelheiras.
Para os trabalhadores autônomos, a recomendação de proteção individual é a mesma. “Não abra mão dos equipamentos necessários, nem que seja aos poucos, investindo gradualmente. Não pilote de sandália, bermuda ou sem capacete. Não é apenas uma norma; é a sua segurança, a sua vida”, alerta.
João, assim como tantos outros trabalhadores, está aprendendo na prática. “Se a gente cai da moto ou fica doente, não tem quem pague as contas. Então, se proteger é parte do trabalho. É chato parar para passar protetor, colocar luva, a jaqueta esquenta, mas é melhor do que ficar queimado ou ter algo pior”, conclui.
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