Enxaqueca afeta 30 milhões de brasileiros e está entre as principais causas de afastamento do trabalho
Reportagem/Juliana Castelo
Ela é aquela visita indesejada que chega aos poucos, mas sem pedir licença. Primeiro vem um incômodo discreto. Depois, é a luz que incomoda, qualquer barulho mais forte irrita. E, enfim, junto com a náusea, começa a dor, geralmente latejante e concentrada em um lado específico da cabeça. Uma vez instalada, a enxaqueca pode roubar desde horas até dias de quem convive com as crises.
De acordo com a Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt), a enxaqueca é a segunda maior causa de incapacidade laboral no mundo, perdendo apenas para a dor lombar. No Brasil, o problema atinge mais de 30 milhões de pessoas, sendo que 85% são mulheres. O impacto também é econômico, já que a perda de produtividade gera um impacto econômico de R$ 800 bilhões no mercado de trabalho do país, segundo estudo da Federação Latino Americana da Indústria Farmacêutica (Fifarma).
Apesar de serem tratadas como sinônimos no dia a dia, dor de cabeça e enxaqueca não são a mesma coisa. O neurologista Marcone Moreno, da Hapvida, explica que dor de cabeça é um termo amplo, que engloba diferentes tipos de cefaleia e pode ter várias causas. “Eu posso ter dor de cabeça associada a infecção, traumatismo, tensão muscular ou alteração neurológica. A enxaqueca é um tipo específico de dor de cabeça”, esclarece. Segundo ele, trata-se de uma das causas mais comuns de dor de cabeça primária, ou seja, sem um fator orgânico evidente que a provoque.
O que costuma acender o alerta para a enxaqueca são as características da dor. “Ela geralmente é unilateral, pulsante, de moderada a forte intensidade e incapacitante”, explica o neurologista. Além disso, a crise costuma vir acompanhada de outros sintomas, como aversão à luz e ao barulho, náuseas e até vômitos. Diferentemente de dores comuns, a enxaqueca tende a piorar com esforço físico e pode durar horas ou até dias.
CAUSAS
Outro ponto importante é que a enxaqueca, na maioria das vezes, não surge associada a uma infecção, febre ou uso recente de medicamentos. “Ela vem sem um provocativo orgânico claro, mas pode ser engatilhada por alterações na rotina”, destaca Moreno. Entre os gatilhos mais comuns estão noites mal dormidas, alimentação fora de horário, estresse, menstruação e até o consumo de determinados alimentos, como chocolates, laticínios, embutidos, enlatados, mariscos e frutas cítricas. Esses fatores, no entanto, variam bastante de uma pessoa para outra.
Os medicamentos têm papel importante, especialmente para prevenir ou aliviar crises mais intensas, mas não funcionam sozinhos se os gatilhos persistirem. “O remédio ajuda a abafar a crise, mas, se a pessoa continua exposta ao fator que desencadeia a enxaqueca, o controle fica limitado”, afirma o neurologista. Em casos de dores menos frequentes e de baixa intensidade, mudanças no estilo de vida podem ser suficientes para manter a enxaqueca sob controle e devolver qualidade de vida ao paciente.
Diante da dor, a automedicação costuma ser a primeira reação, mas o neurologista faz um alerta. “Quando a automedicação se torna frequente, ela passa a ser um problema”, afirma. O uso excessivo de analgésicos e anti-inflamatórios pode fazer com que os remédios percam o efeito e, paradoxalmente, passem a causar a dor de cabeça em vez de aliviá-la, numa condição conhecida como “cefaleia por abuso de analgésicos”.
Quando se fala em tratamento, o especialista reforça que o problema não tem cura, mas tem controle. “A enxaqueca não é exatamente uma doença, mas uma entidade clínica. O que a gente busca é controlar”, explica. Segundo o profissional, identificar os gatilhos individuais e ajustar a rotina fazem toda a diferença. “Dormir bem, se alimentar nos horários corretos, praticar atividade física, evitar sobrecarga e estresse ajudam muito a reduzir a frequência e a intensidade das crises”, diz.